"Eu vou cair!" foi o que escutou-se na parte dianteira do ônibus.
Estava atemorizada e, se pudesse ficar paralizada, era o que teria feito. Não obstante, sentia aproximar-se cada vez mais do chão de metal ondulado que tremeluzia e retinia um zumbido mortal à ouvidos desacostumados.
Era incapaz de ajudar-se. Aquela mão quase inútil, mirrada, defeituosa, não era de seu proveito. Pelo menos não naquele momento. Percebeu frustrada o que já sabia há muito tempo: não poderia desvencilhar-se da situação sem sofrer nenhum dano, mesmo que psicológico. Fazer o quê? Ela já estava acostumada...
Enquanto seu grito ecoou pelos cantos abafados do transporte, tornando-se inaudível quase instantâneamente, não percebeu grande parte dos olhares alheios convergindo em sua direção. Alguns olhares cheios de compaixão, outros com uma mistura de vários sentimentos. Havia ainda aqueles em que nem era possível distinguir a reação.
De súbito surgiu um apoio, uma mão. Apartou-lha o medo e guiou-a até a saída. De quem eram as mãos pouco importava! Só se sabe que foram as únicas mãos capazes de movimentar-se.