“Disseste-me que eu não era bonito
E eu acreditei
Disseste que eu não era especial
Então, vivi daquele jeito...”
A suave canção tocava na caixa de som do computador. Era uma de suas músicas preferidas. Embora o fizesse lembrar as vezes que falhara e as oportunidades que negligenciara, às vezes, por ignorância, trazia-lhe uma espécie de conforto. Alguém no mundo se sentira também daquele jeito: feio, sozinho, imundo.
“...Mas Deus ama o que é feio
Ele não vê do jeito que vejo...”
Lágrimas sempre vinham em seus olhos nesta parte. Sabia que Deus amava-o, que era seu grande amigo e que jamais o abandonaria, mas, apesar de tudo isso, ele não se sentia bonito, limpo. Sua aparência não era das piores, teria de concordar, mas internamente, no mais fundo de onde corria-lhe sangue, havia um vazio, uma porção oca como tronco de um bambu.
Estaria Jesus cego para não ver tudo que ele era?
Pensando bem, a pergunta correta seria: o que Jesus teria para ver nele? Ele não era nada. Já comprovara isso inúmeras vezes. Tentara tanto agradar as pessoas, sorrir enquanto deveria chorar, dar em vez de receber... Tentara tudo, mas continuara o mesmo. Talvez a vida seja um fardo que devemos carregar.
Talvez.
Penosamente, imaginava-se contanto este tipo de coisas a outra pessoa. Conversar com alguém bem íntimo sobre os problemas da vida, suas expectativas e tudo o mais. Tinha medo de parecer um idiota qualquer, sabia bem disso, mas se um dia isso acontecesse poderia liberá-lo dos fantasmas interiores que lhe consumiam o ser...
Fantasmas? Que fantasmas?
Não saberia responder. Mas algo estava errado. Tinha de estar.
Esse sentimento inconspícuo e remanescente consumia-lhe todos os dias e não saberia dizer o porquê. Só sabia que era um infeliz, um mendigo clamando por piedade dum estranho...
“Conversar com alguém bem íntimo sobre os problemas da vida...”
Esse pensamente voltou a sua mente. Ele nunca fora capaz de falar sobre sentimentos, sobre coisas profundas com ninguém. Sempre fora um idiota com as palavras. Às vezes era difícil suportar sua própria voz audível exacerbando as emoções internas.
Pensando bem, não seria grande idéia falar abertamente com essa suposta pessoa. Ele poderia estragar tudo de novo. Era sua especialidade.
11:47!
Já estava na hora de fazer algo em vez de ficar deitado no colchão afogando-se em autocomiseração. Já havia luz no apartamento e quase todas as coisas estavam em seus devidos lugares, exceto o porta retrato da tia Celeste que permanecia caído no meio dos livros.
Tomou um banho rápido para aliviar o calor, colocou uma roupa socialmente aceitável e partiu à procura de algo que lhe trouxesse dinheiro.